A História do “Hip-Hop”
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Na
década de 60, proliferou-se uma grande discussão sobre direitos humanos e,
nesta ordem dos fatos, os marginalizados da sociedade de Nova York se articularam
para fazer valer suas propostas na eliminação das suas inquietações. Assim
surgiram grandes líderes negros, como Martin
Luther King e Malcom
X, e grupos que lutavam pelos direitos humanos
como os Panteras Negras (Black Panthers).
Enquanto
isso na Jamaica, surgiram os ‘Sound Systems’, que eram colocados nas ruas dos guetos jamaicanos para
animar bailes. Esses bailes serviam de fundo para o discurso dos ‘Toasters’, autênticos MC’s (Mestres de Cerimônia)
que comentavam, com uma espécie de canto falado, assuntos como a violência das
favelas de Kingston e a situação política da Jamaica, sem deixar de falar, é
claro, de temas como sexo e drogas. No final da década de 60, muitos jovens jamaicanos
foram obrigados a emigrar para os Estados Unidos, devido a uma crise econômica
e social que se abateu sobre a ilha. E um deles em especial, o DJ jamaicano Kool Herc, introduziu nos
bailes da periferia de Nova York a tradição dos ‘Sound Systems’ e do canto
falado. Inspirando vários DJ’s (Disc Jóqueis) americanos, entre eles o DJ Grand Master Flash,
inventor do scratch, cuja invenção sofisticou o canto falado. Surgiram os MC’s (Mestres de Cerimônia)
e os Rappers,
que construíam discursos indignados, raivosos, cheios de referências a
conflitos raciais e sociais. Eram vozes herdeiras da radicalidade dos Panteras
Negras (Black Panthers), que juntando-se a bases sonoras dançantes e efeitos
como o scratch criaram o RAP (sigla de Rythm And Poetry, ou Ritmo e Poesia, em
português) que eram compostos por uma base musical dançante acompanhado de
rimas faladas que seguiam o ritmo.
O
Break era uma
dança inventada pelos porto-riquenhos, através da qual expressavam sua
insatisfação com a política e a guerra do Vietnã. Tinha inspiração, entre
outras coisas, em movimentos de artes marciais, como o Kung Fu. O Break se
alastrou junto com as gangues de Nova York, que por volta do final da década de
60, respondia à opressão social com violência brutal. Era comum o confronto
armado. Por tradição norte-americana os grupos étnicos não se misturavam, daí
tínhamos gangues de hispânicos e gangues de negros. Cada uma tinha seu código
de grupo, o chamado TAG (assinatura dos grafiteiros), e demarcavam os territórios
com Grafites
nos muros dos bairros de Nova York. Contudo nos momentos de descontração, essas
gangues dançavam o Break.
O Movimento Hip Hop é um movimento social que foi criado pelas Equipes de
Bailes norte-americanas, por volta de 1968, com o objetivo de apaziguar as
brigas dos jovens negros e hispânicos agrupados em gangues. Seu nome tem origem
nas palavras Hip (quadril, em inglês) e Hop (saltar, em inglês). Logo, a expressão Hip Hop (saltar balançando o quadril)
se referia ao Break, a dança mais popular da época. As Equipes organizavam
Bailes e Festas de Quarteirões nas ruas, nos ginásios e nos colégios,
incentivando os jovens a dançarem o Break ao invés de brigarem entre si. As
Equipes também incentivavam o Grafite como forma de arte e não apenas como uma
forma de marcar territórios. A mais famosa dessas Equipes foi a Universal Zulu Nation, que
tinha como líder o DJ Afrika Bambaataa, reconhecido como fundador oficial do Hip-Hop.
Afrika Bambaataa nasceu e foi criado no Bronx e, quando
jovem, fazia parte de uma gangue chamada Black
Spades (Espadas Negras, em português), mas viu
que as brigas entre as gangues não levariam a lugar nenhum. Muitos dos membros
originais da Zulu Nation também faziam parte da Black Spades, que era uma das
maiores e mais temidas gangues de Nova York. Bambaataa se utilizou de muitas
gravações já existentes de diferentes tipos de música para criar Raps. Usando
sons, que iam desde James Brown (o mestre da Soul Music) até o som eletrônico da música “Trans-Europe Express” (da
banda européia Kraftwerk), e misturando ao canto falado trazido pelo DJ jamaicano
Kool Herc, Bambaataa criou a música “Planet
Rock”, que hoje é um clássico. Bambaataa
também foi um dos líderes do Movimento Libertem
James Brown, criado quando o mestre da Soul
Music estava preso e, anos depois, foi o primeiro ‘Hip-Hopper’ a trabalhar com
James Brown, gravando “Peace, Love & Unity”.
Além disso, a Zulu Nation organizava palestras chamadas de
‘Infinity Lessons’(Aulas Infinitas, em bom português), que eram aulas sobre
conhecimentos, prevenção de doenças, matemática, ciências, economia, entre
outras coisas e que serviam para modificar os pensamentos das gangues. Segundo
seu próprio líder, Afrika Bambaataa, a Zulu Nation apóia o conhecimento, a
sabedoria, a compreensão, a liberdade, a justiça, a igualdade, a paz, a união,
o amor, a diversão, o trabalho, a fé e as maravilhas de Deus. Essa verdadeira
‘Nação’ também viajou por todo o mundo para pregar a boa palavra do Hip-Hop,
fazendo muitos shows e arrecadando fundos para campanhas Anti-Apartheid (Anti-Racista)
e chegou a reunir 10.000 membros em todo o mundo. Segundo a Zulu Nation, no
espaço descontraído da rua era, e ainda é, possível manifestar opiniões e se
divertir. Os jovens excluídos, no contato com seus iguais (o grupo), podiam
sentir e vivenciar a rara oportunidade da livre-expressão através da arte, sem
repressão.
A História do “Hip-Hop”
no Brasil
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Cerca de dez anos após sua fundação, o Hip-Hop chegou ao
Brasil. Chegou primeiro a São Paulo, onde foi adotado como estilo de vida por milhares de
jovens da periferia. Os mesmos jovens que freqüentavam os Bailes de Black Music, que
ouviam James Brown e que usavam o penteado Black
Power, começavam a ter contato com a batida o Break e o Rap (a princípio chamado de
‘tagarela’),
por intermédio das Equipes de Baile, das revistas e dos discos vendidos na Rua 24 de Maio (em São
Paulo), surgindo assim os primeiros ‘Hip-Hoppers’ brasileiros. Os pioneiros do
movimento, que inicialmente dançavam o Break, foram Nelson Triunfo, depois Thaíde & DJ Hum, MC/DJ Jack, Os Metralhas, Jabaquara Breakers, Os Gêmeos e muitos outros.
Eles dançavam na Rua 24 de Maio, mas foram perseguidos por lojistas e policiais
e depois foram para a Estação São Bento do
Metrô e lá se fixaram. Reunindo-se nos finais
de semana na Estação São Bento, aqueles jovens pobres vindos dos lugares mais
distantes e menos favorecidos da cidade se encontravam. Durante a semana eram
subempregados, camelôs, office-boys, feirantes, vendedores. Ali eram artistas
de rua, dançavam Break, conversavam, ouviam Raps e consumiam todo material
relativo ao movimento. Houve um período de
divisão entre os breakers e os rappers, os
primeiros continuaram na São Bento, os outros foram para a Praça Roosevelt.
Em 1988 foi lançado o primeiro registro fonográfico de Rap
Nacional, a coletânea “Hip-Hop – Cultura de Rua” pela gravadora Eldorado. Desta coletânea participaram Thaíde & DJ Hum, MC/DJ
Jack, Código 13
e outros grupos iniciantes. Nesse período de ascensão do Rap, a capital
paulista passou a ser governada por uma prefeitura que muito auxiliou na
divulgação do Movimento Hip-Hop e na organização dos grupos. Por esse motivo
foi criado em agosto de 1989 o MH2O – Movimento
Hip-Hop Organizado, por iniciativa e sugestão
de Milton Salles,
produtor do grupo Racionais MC's até 1995. O MH2O organizou e dividiu o movimento no Brasil
em dois grupos: as Gangues de Break e as Posses, definindo suas respectivas funções. Nesse trabalho de
divulgação do Hip-Hop e organização de oficinas culturais para
profissionalização dos novos integrantes, não podemos esquecer de citar a
participação do músico de reggae Toninho Crespo. Este trabalho teve sua continuidade no município de Diadema com o
profissionalismo de Sueli Chan (membro do MNU - Movimento
Negro Unificado). Outra pessoa que foi muito
importante na divulgação do Hip-Hop no Brasil foi Armando Martins com o seu
programa Projeto Rap Brasil, que lançou vários grupos de Rap durante os anos em que
esteve no ar.
As Posses, para quem não sabe, são grupos de encontro que congregam
Rappers, Grafiteiros e Breakers de uma mesma região. Eles trabalhavam juntos em
atividades artísticas, de ação comunitária, de formação política. Colaboravam
uns com os outros para aperfeiçoar a atuação dos grupos através da troca de
experiências e informações e atuavam em seus próprios bairros através de shows
e de cooptação de jovens envolvidos com drogas e o crime para o trabalho no
movimento, levando-os a abandonar o vício. Também participavam de eventos
promovidos por entidades de movimentos negros, sindicatos, partidos políticos,
palestras e apresentações teatrais. Essa estrutura das posses sobrevive ainda
hoje, sendo reproduzida por ‘Hip-Hoppers’ de outros estados, como é o caso do Movimento Hip-Hop Bahia
que, através da posse ORI (que significa cabeça ou inteligência em ‘yorubá’), realiza
algumas dessas atividades, além de visitas a comunidades, atuações em eventos
ligados à luta pelos Direitos Humanos, oficinas internas e palestras,entre
outras atividades. Outro exemplo é a UNEGRO –
União de Negros pela Igualdade, os jovens
podem ter acesso a um instrumental teórico e organizacional. Este material
otimiza tanto a criação, através do acesso a informações, como o engajamento
político, além da reprodução de estratégias de consolidação e expansão dos
ideais do Movimento Hip-Hop, principalmente o combate
ao racismo.
Os Rappers nacionais se colocam como relatores de um Brasil fortemente desigual, com instâncias rígidas,com poucas possibilidades de intercâmbio e mobilidade, em contraponto a imagem de ‘país libertário e malandro’. Denunciam as chacinas e homicídios, colocam no imaginário nacional ‘as milhares de casas amontoadas’. Os shows beneficentes são a contribuição dos Rappers que melhor expressa sua identidade. Exibem-se para comunidades carentes, nas ruas, em passeatas, mostrando a dança e a fala que construíram juntos. Pouco escolarizados, mas articulados, os Rappers ingerem o lixo urbano e devolvem sementes de revolução e transformações individuais e coletivas através dos versos ‘violentamente pacíficos’, mostrando ‘o que a novela não diz’.
Os Estados Unidos, país marcado pelos constantes conflitos raciais, não poderia deixar ausente da sua história social, a atuação incisiva da juventude negra, repugnando o seu sistema opressor e severamente segregacionista. Há que se registrar, porém, que no Brasil, a realidade das relações raciais não é muito distante da norte-americana, apenas diferente, em decorrência do próprio processo histórico em que se deu a formação do povo brasileiro. Sobre isto, podemos salientar que, embora exalte modelos e valores norte-americanos, fruto também do processo de globalização, a cultura Hip-Hop continua apresentando características locais. Muitas Bandas de Rap têm utilizado elementos musicais tipicamente brasileiros em sua bases, além das letras serem inteiramente resultado de experiências locais e refletirem, com muito mais propriedade, a realidade brasileira.
>>>Pesquisa escrita
por MIRO “Wolverine” com dados extraídos de:
1) HomePage “O Movimento Hip-Hop”
(
www.facom.ufba.br/serhurbano/hiphop/indice.html )
2) HomePage “Universal Zulu Nation”
(
www.hiphopcity.com/zulu_nation/index.shtml )
3) Entrevista com Afrika Bambaataa na MTV
( www.mtv.com.br )